CRÍTICA: boas histórias mastigadas pela boca do povo


Nos próximos capítulos de “Avenida Brasil”, Tufão (Murilo Benício) presenteará Nina (Débora Falabella) com o “Livro de sonetos”, de Vinícius de Moraes. Não se sabe se ele recitará para ela, por exemplo, o “Soneto de amor maior” (”Maior amor nem mais estranho existe/Que o meu, que não sossega a coisa amada”), mas nem precisa — todo mundo conhece algum poema desse livro. Sem querer comparar, quando um texto — seja ele literatura clássica, seja uma novela de sucesso, como a de João Emanuel Carneiro — cai no gosto popular, a citação prescinde de explicações. Todo mundo entende o recado. Isso aconteceu quando a cozinheira ofereceu ao ex-jogador “Madame Bovary” e “O Primo Basílio”. O telespectador também pescou que, quando transmitidas com naturalidade, essas mensagens não ficam pernósticas nem pseudodidáticas, aquela coisa de novela com vergonha de ser novela.

A literatura, a música, e... “Avenida Brasil” também movimentam o julgamento do mensalão. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, encerrou suas considerações contra os réus com “Vai passar”, de Chico Buarque. Esta semana, o defensor do ex-deputado Paulo Rocha atacou de Camões: “Sete anos de pastor Jacob servia/Labão, pai de Raquel, serrana bela/mas não servia ao pai, servia a ela/e a ela só por prêmio pretendia”. Na história bíblica, para se casar com Raquel, Jacob, coitado, é obrigado por Labão a servir sete anos e depois a casar-se com Lia, filha mais velha e feia. Sua empreitada é longa como a vingança de Nina. E rendeu uma boa história. Como todas as boas histórias, essa se presta a mil apropriações metafóricas. Não é à toa que ultimamente o Brasil inteiro cita Nina e Carminha para ilustrar fatos de todas as naturezas.

Kogut

0 comentários:

Enviar um comentário

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More